Resenha: Cira e o Velho pela Giz Editoral

Alguns livros são mais difíceis de falar a respeito do que outros. A nestes complicados temos duas situações: ou eles são o lixo da humanidade ou eles são tão bons que as palavras desfalecem. Com certeza a segunda situação é a que se aplica ao livro que irei resenhar hoje.

Li já faz mais do que semanas, e estou planejando fazer esta resenha há mais tempo ainda. No entanto, nem todo esse tempo foi o suficiente para que na minha cabeça surgisse exatamente o que eu deveria falar. Logo, fiz da forma mais simples, da mesma que se faz quando é preciso escrever um conto com data para envio: me sentei na frente da página em branco e comecei a digitar.

“Cobra Norato é um amante da vida.

Pelas margens dos rios, espalhou paixões, filhos e filhas. Uma delas é Cira, que nasceu do
ventre da bruxa Guaracy. Sua alegria de viver é tão intensa quanto seu ódio pelo homem
que a deixou para morrer: o Velho.

Domingos Jorge Velho é um caçador de homens. Ele toma a liberdade dos índios e
a entrega aos brancos de além-mar. É um guerreiro, sem outra fé
além do ouro e da propriedade.

Cira caminha pelo País que surge, que é desbravado e desmatado. Ela persegue o rastro de Domingos.
Ela encontra o ocaso da magia e a ascensão da pólvora. Em Palmares, os inimigos se enfrentarão
e, nessa guerra, se descobrirá quem é o proprietário do novo mundo.”

“Cira e o Velho” trata não somente das personagens que deram nome a ele, mas principalmente sobre o folclore nacional, e o Brasil em uma época em que as histórias que se contavam por aqueles que chegaram antes do homem branco estão sendo sufocadas e convertidas (fatos que são mostrados literalmente pelo autor). Mas para mostrar isto, Walter Tierno utiliza de uma trama atraente e uma narrativa sedutora.

Cira, filha de Cobra Notaro e a Bruxa Guaracy distancia-se do que seria uma garota comum, ao menos para os nossos padrões. É criada como deveria ser, sendo ela filha de uma bruxa e um animal mágico como Norato. E ver o crescimento de uma personagem que contrasta com o nosso senso comum é apenas uma pontinha do gostinho que iremos sentir durante o livro.

As histórias de Cira e o Velho, e este Velho é uma figura conhecida, e deve ser lembrada por quem gostou de História do Brasil, dando seu nome completo Domingos Jorge Velho (se você não se lembra quem ele é, não se preocupe, o livro trará a lembrança à tona), cruzam-se quando o mercenário (ou bandeirante, chame como quiser) é contratado por Maria Caninana, irmã de Cobra Norato, para assassinar sua parceira preferida e a última filha que ele havia colocado no mundo. O motivo para tal desejo sanguinário entre família é explicado na obra, e me pouparei de acabar com os charmes dessa história.

E dali pra frente a história caminha entre terminar o trabalho e a vingança de Cira, trombando com personagens folclóricas, algumas mais conhecidas do que outras.

Mas que fique claro: Walter Tierno não começa a história simplesmente falando de Cira e seus pais. A história é contada por um narrador-personagem, durante a infância ele consegue uma figurinha (sim, daquelas de álbum com pacotinhos de quatro na banca de jornal) de Cira, e torna-se obcecado por esta figura curiosa e sedutora. Desejoso de conhecimento, ele sai Brasil afora, reunindo relatos, especialmente de Dona Nhá, montando a vida de Cira como um quebra cabeça.

Mas além da história, e a forma em que ela é contada, existem as palavras nas quais se expressam.

A narrativa é leve e fluída, soando como algo que se ouviria facilmente saindo da boca de um bom contador de histórias (à moda antiga mesmo, desses que difícilmente encontramos hoje em dia). Nada de palavras doces ou folclore infantil, existem diversas cenas brutais no livro (e para isto esteja preparado), e Tierno às conta sem palavras amedrontadas ou barrocas, indo direto ao ponto, o que dá os pelos na cara de gente grande que essa obra merece.

O único ponto negativo que consigo trazer à tona são as ilustrações. Mesmo sendo lindas (a minha favorita é a primeira, que mostra como Cira esta representada na figurinha do narrador), creio que destoam da obra. São um pouco infantis e podem dar a falsa impressão de que “Cira e o Velho” é um livro para crianças, o que definitivamente não é (adolescentes que precisam aprender a amar o que é nosso e perceber que existem coisas lindas no Brasil sim, crianças não).

Entrou para estante dos meus livros favoritos, sendo um dos poucos que fala sobre Brasil.

nota: 9,2

Sobre o autor:

Walter Tierno é ilustrador, jornalista e publicitário. Não necessariamente nesta ordem.
Apaixonado por histórias em quadrinhos, romances de fantasia, ficção científica, história e animais. Não necessariamente nesta ordem.

Começou a trabalhar aos 18 anos, pouco antes de se formar técnico em Artes Gráficas pelo SENAI, no departamento de arte da extinta editora Maltese. Aos 21, ingressou na publicidade. Atuou na área por quase vinte anos.

Walter vive em São Paulo, com as paixões de sua vida. A esposa, a filha, os gatos Titus e Sisko e a gata Jolie. O tamanho de seu amor por eles segue necessariamente esta ordem.

siga-o no twitter: @waltertierno

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Uma resposta em “Resenha: Cira e o Velho pela Giz Editoral

  1. Oi, Ninive!

    Faço questão de passar em todas as resenhas que fazem do livro do Walter, porque além de ser um amigo muito querido, é um escritor maravilhoso que merece toda a nossa admiração!

    Adorei sua resenha! Achei superpertinente e bem exposta!

    Discordo apenas das ilustrações… Adorei acompanhar a história com a ajuda das figuras!

    Beijos!

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